sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

"Guerra Fria" ("Zimna Wojna", 2018)

Como uma pessoa que tem de apertar as roupas ao redor de seu corpo e enrijecer a alma diante de um caminho barrento e congelante, a câmera de Guerra Fria não demora nas vistas daquele interior polonês como se fossem exuberantes, mas não deixa de tratar terra estéril e ruínas, tudo em preto-e-branco, como uma riqueza a ser tratada e devidamente venerada por dezenas de minutos.

Porém, se apreciar a paisagem talvez não seja algo que passa pelas mentes castigadas daquele lugar e época, existem outras propostas, como a escavação de música popular local que revela um talento apaixonante dos moradores da região — principalmente de jovens que, mais tarde, serão dirigidos pelos arredores em espetáculos formais, uma fonte constante de ilustração lírica dos temas do filme — ou, mais importante, o romance entre a jovem Zula e o condutor musical Wiktor, cuja atração resiste a teste após teste, país após país, gerando uma órbita implacável cujos desencontros constantes, mesmo que potencialmente fatais para o relacionamento, acabam se revelando frequentemente como noites de 1 ano.

Brilhante em como incorpora lacunas quase rítmicas a essa história de amor desgraçado, Guerra Fria preserva o gélido da sua apresentação ao não permitir que o sentimento jorre da tela; em vez disso, reapresenta cada convergência condenada do casal como uma nova introdução, tão diferente quanto pode sem quebrar a coesão na jornada individual de cada um. O resultado: uma reinvenção constante das circunstâncias de cada encontro e de como recair naquela paixão há de desestruturar qualquer roupagem que Wiktor e Zula encontraram para se estabilizar longes um do outro.

Zula é impetuosa e independente, e Wiktor, silenciosamente dedicado à sua arte; são traços que se complementam e revezam os amantes, lealdade como vício e força como violência. É fascinante, no entanto, como o longa retrata um sentimento ardente sem se afogar nele, como se aquilo fosse o fogo que permite que essas pessoas avancem no vazio que os espera depois de cada rompimento.

 

Guerra Fria (Zimna Wojna), originalmente lançado em 2018
89 min
dirigido por Pawel Pawlikowski e escrito por Pawel Pawlikowski, Janusz Glowacki e Piotr Borkowski
estrelado por Joanna Kulig, Tomasz Kot, Borys Szyc, Agata Kulesza
onde assistir | IMDb

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

"Disque M para Matar" ("Dial M for Murder", 1954)

Acho que este é o filme que mais me aproximou de um plano de assassinato. Não que eu
tenha simpatizado com os assassinos, já que os personagens não são bem explorados, nenhum deles, o que até faz falta; é que, como esperado de um filme do Hitchcock (mesmo este que não foi escrito por ele), o esquema sinistro é o motor do longa inteiro, e tão diabólico, minucioso e prazerosamente explicado que nos tornamos cúmplices torcendo para que a ideia dê certo. 

Não é esse o único paralelo com Festim Diabólico que eu pude perceber: aqui também temos a impressão de que a trama faz um comentário sobre a própria experiência de assistir, ler, escutar uma história que nos cativa com sua meticulosidade na violência. Porém, se aquele filme tinha algo bem disfarçado a dizer sobre o autor de tal história, aqui, os pontos são muito mais claros e abrangem todo um panorama ao redor dessas obras lúridas que inclui os consumidores também.

Embora tenhamos vários momentos, antes da metade da obra, que nos façam rir com certa culpa, é depois da intermissão que o filme se solta um pouco. Com a chegada de um detetive quase que irritantemente eficaz e praticamente obrigado a exibir seu sarcasmo, é aí que Disque M para Matar pode ser plenamente descrito como divertido.

Além disso, se a tensão construída até então dependia da nossa torcida pela morte, agora, é mais interessante para nós (os interesseiros) ver o gênio solucionar o crime. Some a isso o envolvimento de um escritor de romances de crime e um novo ângulo desprezível do marido e você tem um dos desfechos mais mirabolantes imagináveis, uma verdadeira guerra de hipóteses dirigida como uma peça de teatro — um clímax tão desprovido de ação, filmado na mesma sala de estar à qual o filme esteve agarrado desde o começo, é intenso a ponto de parecer que vai explodir. Eu até acho que ele exagera na complexidade, mas, com certeza, impressiona qualquer um.

 

Disque M para Matar (Dial M for Murder), originalmente lançado em 1954
105 min
dirigido por Alfred Hitchcock e escrito por Frederick Knott 
estrelado por Ray Milland, Grace Kelly, Robert Cummings, John Williams
onde assistir | IMDb

sábado, 6 de setembro de 2025

Meus episódios favoritos: "Lost", 5x08: "LaFleur"

 
Este texto contém spoilers da 5ª temporada de "Lost".

Por quatro temporadas, "Lost" se manteve fiel à estrutura narrativa do seu primeiro episódio. A série, que acompanha os sobreviventes de um acidente de avião numa ilha aparentemente deserta e certamente fantástica, teve como sua maior tradição centrar cada capítulo em um dos membros do extenso elenco, aconpanhando tanto o que se passa na Ilha como o que o personagem cêntrico viveu antes dela. A jornada desse formato não foi impecável, mostrando sinais de cansaço no 3º ano, logo antes de eletrizar a fundação dessa ideia com a mudança dos flashes temporais para o campo do futuro, quando o quase impossível resgate dos passageiros do Oceanic 815 já havia acontecido.


Com a chegada da quinta e (deliberadamente) penúltima fase do seriado, o formato estava pronto para ir pro banco. "Lost" sempre foi complexa, mas, àquela altura, a trama em si havia se complicado de tal maneira que a saída mais apaziguadora vinda dos showrunners era contar a história de forma linear pela primeira vez. Isto é, tão linear quanto se pode quando a maior parte dos personagens se encontra pulando de forma desenfreada — e tempo marcado — através do calendário. Para quem não sabe, "Lost" foi, por um período curto e denso, do gênero de viagem no tempo.

"LaFleur", a 8ª hora da quinta temporada, não marcou só o fim definitivo desse fenômeno caótico. Por causa de um excesso de mistérios e reviravoltas, a série parecia estar em perigo de perder de vista o que tinha de mais essencial: seu foco resoluto nos personagens. Este episódio é como seu personagem-título: uma tomada de decisão firme de arrumar a bagunça que este drama virou, o que consistiu em reutilizar uma peça antiga, um homem de um histórico ALTAMENTE irresponsável, para fazer o trabalho.
"LaFleur" nos introduz a um Sawyer renascido sob novo pseudônimo, morando há 3 anos com outros personagens previamente perdidos, em 1977, trabalhando como Chefe de Segurança no auge da Iniciativa Dharma. O capítulo abre mão de todo o barulho para adentrar o quartel dessa enigmática empreitada, que se instalou na Ilha para conduzir todo tipo de experimento sci-fi com as propriedades mágicas do lugar. A mudança de tom é enorme: somos introduzidos aos nossos queridos andarilhos vivendo civilizadamente no centro da selva. Sob o disfarce de uma equipe naufragada, eles vasculham a Ilha procurando pelo prometido retorno dos resgatados.

Seja Sawyer, Juliet ou Miles, ver alguém que entrou na série fazendo bagunça, extorquindo e mentindo, se acomodar a uma vida pacífica num lugar cujas cercas brancas poderiam lembrá-lo das barras de uma jaula pode parecer impossível, mas "LaFleur" propõe isso com naturalidade. Embora a mudança de Miles seja a mais "repentina", ele não tinha sido tão explorado na série; enquanto isso, Sawyer e Juliet tiveram anos de "Lost" para desenvolver nosso afeto. Ambos tão determinados a sair da Ilha, suas duas semanas restantes no local se tornaram três anos.

"LaFleur" até choca por transitar da urgência apocalíptica da temporada para uma subtrama superficialmente banal e perfeitamente doméstica. O tratamento confiante de roteiro, direção e elenco torna delinquências inofensivas do dia-a-dia (como um membro Dharma, bêbado, explodindo árvores pequenas) em verdadeiro conflito na construção de uma vida pacífica pelos personagens. Mas, como no caso da primeira paciente de Juliet a não morrer em suas mãos, os problemas que eles encontram logo são resolvidos, já que o roteiro leve serve tanto para aliviar o espectador como para mostrar uma concretização do caráter dos personagens. O processo de reintroduzí-los é perfeitamente camuflado com sua convivência saudável com os colonos da Iniciativa, algo que parece tão normal quanto é surpreendente.

O sonho de Sawyer e Juliet cairia por terra episódio por episódio a partir deste. A dedicação de Jin e LaFleur por seus antigos companheiros traria a desconfiança de seus vizinhos e tragédia aos seus lares. Por enquanto, porém, Sawyer confessa: nem se lembra mais da sua vida passada.


LaFleur, 8º episódio da 5ª temporada de Lost, originalmente exibido em 2009
41 min
dirigido por Mark Goldman, escrito por Elizabeth Sarnoff e Kyle Pennington
estrelado por Josh Holloway, Elizabeth Mitchell, Daniel Dae Kim, Ken Leung, Jeremy Davies, Doug Hutchinson, Reiko Aylesworth

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

"Juntos" ("Together", 2025)

O prólogo sensacional de "Juntos" é algo a ser estudado pelo próprio diretor e roteirista Michael Shanks, isto é, caso ele for refazer o filme. Afinal, nessa inquestionável melhor parte do longa, ele prenuncia o pior dos horrores para o casal que estamos esperando aparecer na tela. Essa parte submete dois cães ao "ritual" que veremos com Tim e Millie mais tarde — uma primeira escolha que usa nossa experiência com outros filmes para plantar sementes terríveis nas nossas cabeças: a intimidade entre os dois protagonistas será testada sem piedade, e o processo deve acabar sendo muito pior do que essa abertura breve deixa revelar.

A verdade é que "Juntos" não compensa um remake, já que não torna sua premissa, sua exploração do tema, tão visceral ou criativa quanto poderia, seja expandindo o roteiro ou calibrando imagem e som para causar o máximo de desconforto. Apesar de apertar os botões que fazem contorcer o corpo na poltrona do cinema, o filme não traz nada de distinto nessa razoável digressão do cinema de terror mainstream pelo horror corporal. Ele vale o ingresso mesmo é por colocar seus heróis em posições vulneráveis antes do tocar dos sinos decretar o fim profundamente nojento de suas vidas.

Para sintetizar o verdadeiro apelo do filme, basta me lembrar de uma cena de sexo que é um divisor de águas, lá pela metade da duração. Num ato impulsivo, o casal interpretado por Dave Franco e Alison Brie transam num banheiro escolar o que não transavam há meses em lugar algum. Essa cena tira proveito da terrível secura do relacionamento entre duas pessoas, uma união que, antes ou depois deste momento, teve meu total apoio — como disse minha amiga, talvez não torcendo para que os dois continuassem juntos, mas sim para que todo aquele sofrimento (seja com efeitos especiais ou puro drama) fosse extinguído logo. Na que eu acho que foi a primeira de duas ocasiões, a trilha sonora faz a diferença: ouvimos um coro sintetizado que, mesmo distorcido (parece até shoegaze), emprega tudo o que tem para sugerir um tipo de redenção visceral para os dois. Esse também é o ponto de ruptura entre os personagens: é aí que eles começam a se afastar na mesma velocidade em que suas carnes se mesclam.

"Juntos" pode não ter tanta destreza na direção e economia nos diálogos, mas consegue propor a metamorfose explosiva de um relacionamento amaldiçoado como algo dolorosamente humano, sem depender só dos dispositivos do terror para ganhar seu público e justificando até aquele final embaraçoso, dada a consistência do filme em se abrir para a ferida exposta entre marido e esposa.

 

Juntos (Together), originalmente lançado em 2025
102 min
dirigido e escrito por Michael Shanks
estrelado por Dave Franco, Alison Brie, Damon Herriman