Por quatro temporadas, "Lost" se manteve fiel à estrutura narrativa do seu primeiro episódio. A série, que acompanha os sobreviventes de um acidente de avião numa ilha aparentemente deserta e certamente fantástica, teve como sua maior tradição centrar cada capítulo em um dos membros do extenso elenco, aconpanhando tanto o que se passa na Ilha como o que o personagem cêntrico viveu antes dela. A jornada desse formato não foi impecável, mostrando sinais de cansaço no 3º ano, logo antes de eletrizar a fundação dessa ideia com a mudança dos flashes temporais para o campo do futuro, quando o quase impossível resgate dos passageiros do Oceanic 815 já havia acontecido.
Com a chegada da quinta e (deliberadamente) penúltima fase do seriado, o formato estava pronto para ir pro banco. "Lost" sempre foi complexa, mas, àquela altura, a trama em si havia se complicado de tal maneira que a saída mais apaziguadora vinda dos showrunners era contar a história de forma linear pela primeira vez. Isto é, tão linear quanto se pode quando a maior parte dos personagens se encontra pulando de forma desenfreada — e tempo marcado — através do calendário. Para quem não sabe, "Lost" foi, por um período curto e denso, do gênero de viagem no tempo.
"LaFleur", a 8ª hora da quinta temporada, não marcou só o fim definitivo desse fenômeno caótico. Por causa de um excesso de mistérios e reviravoltas, a série parecia estar em perigo de perder de vista o que tinha de mais essencial: seu foco resoluto nos personagens. Este episódio é como seu personagem-título: uma tomada de decisão firme de arrumar a bagunça que este drama virou, o que consistiu em reutilizar uma peça antiga, um homem de um histórico ALTAMENTE irresponsável, para fazer o trabalho."LaFleur" nos introduz a um Sawyer renascido sob novo pseudônimo, morando há 3 anos com outros personagens previamente perdidos, em 1977, trabalhando como Chefe de Segurança no auge da Iniciativa Dharma. O capítulo abre mão de todo o barulho para adentrar o quartel dessa enigmática empreitada, que se instalou na Ilha para conduzir todo tipo de experimento sci-fi com as propriedades mágicas do lugar. A mudança de tom é enorme: somos introduzidos aos nossos queridos andarilhos vivendo civilizadamente no centro da selva. Sob o disfarce de uma equipe naufragada, eles vasculham a Ilha procurando pelo prometido retorno dos resgatados.
Seja Sawyer, Juliet ou Miles, ver alguém que entrou na série fazendo bagunça, extorquindo e mentindo, se acomodar a uma vida pacífica num lugar cujas cercas brancas poderiam lembrá-lo das barras de uma jaula pode parecer impossível, mas "LaFleur" propõe isso com naturalidade. Embora a mudança de Miles seja a mais "repentina", ele não tinha sido tão explorado na série; enquanto isso, Sawyer e Juliet tiveram anos de "Lost" para desenvolver nosso afeto. Ambos tão determinados a sair da Ilha, suas duas semanas restantes no local se tornaram três anos.
"LaFleur" até choca por transitar da urgência apocalíptica da temporada para uma subtrama superficialmente banal e perfeitamente doméstica. O tratamento confiante de roteiro, direção e elenco torna delinquências inofensivas do dia-a-dia (como um membro Dharma, bêbado, explodindo árvores pequenas) em verdadeiro conflito na construção de uma vida pacífica pelos personagens. Mas, como no caso da primeira paciente de Juliet a não morrer em suas mãos, os problemas que eles encontram logo são resolvidos, já que o roteiro leve serve tanto para aliviar o espectador como para mostrar uma concretização do caráter dos personagens. O processo de reintroduzí-los é perfeitamente camuflado com sua convivência saudável com os colonos da Iniciativa, algo que parece tão normal quanto é surpreendente.
O sonho de Sawyer e Juliet cairia por terra episódio por episódio a partir deste. A dedicação de Jin e LaFleur por seus antigos companheiros traria a desconfiança de seus vizinhos e tragédia aos seus lares. Por enquanto, porém, Sawyer confessa: nem se lembra mais da sua vida passada.







