sábado, 6 de setembro de 2025

Meus episódios favoritos: "Lost", 5x08: "LaFleur"

 
Este texto contém spoilers da 5ª temporada de "Lost".

Por quatro temporadas, "Lost" se manteve fiel à estrutura narrativa do seu primeiro episódio. A série, que acompanha os sobreviventes de um acidente de avião numa ilha aparentemente deserta e certamente fantástica, teve como sua maior tradição centrar cada capítulo em um dos membros do extenso elenco, aconpanhando tanto o que se passa na Ilha como o que o personagem cêntrico viveu antes dela. A jornada desse formato não foi impecável, mostrando sinais de cansaço no 3º ano, logo antes de eletrizar a fundação dessa ideia com a mudança dos flashes temporais para o campo do futuro, quando o quase impossível resgate dos passageiros do Oceanic 815 já havia acontecido.


Com a chegada da quinta e (deliberadamente) penúltima fase do seriado, o formato estava pronto para ir pro banco. "Lost" sempre foi complexa, mas, àquela altura, a trama em si havia se complicado de tal maneira que a saída mais apaziguadora vinda dos showrunners era contar a história de forma linear pela primeira vez. Isto é, tão linear quanto se pode quando a maior parte dos personagens se encontra pulando de forma desenfreada — e tempo marcado — através do calendário. Para quem não sabe, "Lost" foi, por um período curto e denso, do gênero de viagem no tempo.

"LaFleur", a 8ª hora da quinta temporada, não marcou só o fim definitivo desse fenômeno caótico. Por causa de um excesso de mistérios e reviravoltas, a série parecia estar em perigo de perder de vista o que tinha de mais essencial: seu foco resoluto nos personagens. Este episódio é como seu personagem-título: uma tomada de decisão firme de arrumar a bagunça que este drama virou, o que consistiu em reutilizar uma peça antiga, um homem de um histórico ALTAMENTE irresponsável, para fazer o trabalho.
"LaFleur" nos introduz a um Sawyer renascido sob novo pseudônimo, morando há 3 anos com outros personagens previamente perdidos, em 1977, trabalhando como Chefe de Segurança no auge da Iniciativa Dharma. O capítulo abre mão de todo o barulho para adentrar o quartel dessa enigmática empreitada, que se instalou na Ilha para conduzir todo tipo de experimento sci-fi com as propriedades mágicas do lugar. A mudança de tom é enorme: somos introduzidos aos nossos queridos andarilhos vivendo civilizadamente no centro da selva. Sob o disfarce de uma equipe naufragada, eles vasculham a Ilha procurando pelo prometido retorno dos resgatados.

Seja Sawyer, Juliet ou Miles, ver alguém que entrou na série fazendo bagunça, extorquindo e mentindo, se acomodar a uma vida pacífica num lugar cujas cercas brancas poderiam lembrá-lo das barras de uma jaula pode parecer impossível, mas "LaFleur" propõe isso com naturalidade. Embora a mudança de Miles seja a mais "repentina", ele não tinha sido tão explorado na série; enquanto isso, Sawyer e Juliet tiveram anos de "Lost" para desenvolver nosso afeto. Ambos tão determinados a sair da Ilha, suas duas semanas restantes no local se tornaram três anos.

"LaFleur" até choca por transitar da urgência apocalíptica da temporada para uma subtrama superficialmente banal e perfeitamente doméstica. O tratamento confiante de roteiro, direção e elenco torna delinquências inofensivas do dia-a-dia (como um membro Dharma, bêbado, explodindo árvores pequenas) em verdadeiro conflito na construção de uma vida pacífica pelos personagens. Mas, como no caso da primeira paciente de Juliet a não morrer em suas mãos, os problemas que eles encontram logo são resolvidos, já que o roteiro leve serve tanto para aliviar o espectador como para mostrar uma concretização do caráter dos personagens. O processo de reintroduzí-los é perfeitamente camuflado com sua convivência saudável com os colonos da Iniciativa, algo que parece tão normal quanto é surpreendente.

O sonho de Sawyer e Juliet cairia por terra episódio por episódio a partir deste. A dedicação de Jin e LaFleur por seus antigos companheiros traria a desconfiança de seus vizinhos e tragédia aos seus lares. Por enquanto, porém, Sawyer confessa: nem se lembra mais da sua vida passada.


LaFleur, 8º episódio da 5ª temporada de Lost, originalmente exibido em 2009
41 min
dirigido por Mark Goldman, escrito por Elizabeth Sarnoff e Kyle Pennington
estrelado por Josh Holloway, Elizabeth Mitchell, Daniel Dae Kim, Ken Leung, Jeremy Davies, Doug Hutchinson, Reiko Aylesworth

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

"Juntos" ("Together", 2025)

O prólogo sensacional de "Juntos" é algo a ser estudado pelo próprio diretor e roteirista Michael Shanks, isto é, caso ele for refazer o filme. Afinal, nessa inquestionável melhor parte do longa, ele prenuncia o pior dos horrores para o casal que estamos esperando aparecer na tela. Essa parte submete dois cães ao "ritual" que veremos com Tim e Millie mais tarde — uma primeira escolha que usa nossa experiência com outros filmes para plantar sementes terríveis nas nossas cabeças: a intimidade entre os dois protagonistas será testada sem piedade, e o processo deve acabar sendo muito pior do que essa abertura breve deixa revelar.

A verdade é que "Juntos" não compensa um remake, já que não torna sua premissa, sua exploração do tema, tão visceral ou criativa quanto poderia, seja expandindo o roteiro ou calibrando imagem e som para causar o máximo de desconforto. Apesar de apertar os botões que fazem contorcer o corpo na poltrona do cinema, o filme não traz nada de distinto nessa razoável digressão do cinema de terror mainstream pelo horror corporal. Ele vale o ingresso mesmo é por colocar seus heróis em posições vulneráveis antes do tocar dos sinos decretar o fim profundamente nojento de suas vidas.

Para sintetizar o verdadeiro apelo do filme, basta me lembrar de uma cena de sexo que é um divisor de águas, lá pela metade da duração. Num ato impulsivo, o casal interpretado por Dave Franco e Alison Brie transam num banheiro escolar o que não transavam há meses em lugar algum. Essa cena tira proveito da terrível secura do relacionamento entre duas pessoas, uma união que, antes ou depois deste momento, teve meu total apoio — como disse minha amiga, talvez não torcendo para que os dois continuassem juntos, mas sim para que todo aquele sofrimento (seja com efeitos especiais ou puro drama) fosse extinguído logo. Na que eu acho que foi a primeira de duas ocasiões, a trilha sonora faz a diferença: ouvimos um coro sintetizado que, mesmo distorcido (parece até shoegaze), emprega tudo o que tem para sugerir um tipo de redenção visceral para os dois. Esse também é o ponto de ruptura entre os personagens: é aí que eles começam a se afastar na mesma velocidade em que suas carnes se mesclam.

"Juntos" pode não ter tanta destreza na direção e economia nos diálogos, mas consegue propor a metamorfose explosiva de um relacionamento amaldiçoado como algo dolorosamente humano, sem depender só dos dispositivos do terror para ganhar seu público e justificando até aquele final embaraçoso, dada a consistência do filme em se abrir para a ferida exposta entre marido e esposa.

 

Juntos (Together), originalmente lançado em 2025
102 min
dirigido e escrito por Michael Shanks
estrelado por Dave Franco, Alison Brie, Damon Herriman